Sentado num canto de uma saleta de leitura, envolto por um
clima de nostalgia onde o silêncio reinava, até ser quebrado uma hora e outra
por canto de pássaros. A saleta era encoberta por fracos raios de sol que
terminavam justamente na poltrona, onde sentado de modo confortável e ereto,
com o livro entre as mãos, um livro de capa vermelha de folhas amareladas, ele
olhava por entre os óculos posicionados na ponta do nariz, linha por
linha,letra por letra formando assim a história lida.
Uma leve brisa tocava seus cabelos grisalhos, os bagunçando
suavemente, forçando o Sr.Bernardo os arrumá-los de vez em quando. Ele era
sozinho, numa casa que cheirava a pinha por conta da escada de madeira que
levava ao segundo andar.
A sua rotina era sempre a mesma,acordava, tomava seu café e lia seu livro de
capa vermelha. Após o almoço, ia para o conservatório dar aula de piano para o
seu único companheiro, Ed.
Ed adorava as aulas de piano e após cada aula, ele ia para a
casa de Bernardo ler seus livros e antigas poesias feitas quando ele ainda era
um famoso escritor da literatura de seu
país.
-O senhor escreve muito bem. Elogiou Ed.
-Obrigado menino. Fiz uma poesia hoje mais cedo, quer ler?
-Gostaria muito de ler!Exclamou o jovem.
Bernardo foi até a sua escrivaninha de escura madeira, abriu
a gaveta e pegou a folha em branco, a não ser no fim da mesma. Bernardo
entregou ao garoto e sentou-se na sua poltrona.
Ed pegou o papel, sentou-se também ao lado da poltrona de
Bernardo e percorreu os olhos na folha e ao fim leu: ‘’Neve’’, escrito em
letras miúdas e espaçadas. O menino ficou intrigado com o que leu e perguntou:
-Neve?!Por que isso?
-A folha está em branco a não ser no seu fim, certo?-Indagou Bernardo olhando
para Ed com um olhar contente.
-Sim. Respondeu ainda intrigado o jovem.
-Pois então, se você pensar bem, a parte em branco poderá
ser a ‘’neve’’ que escrevi, se você tiver uma bela imaginação.Muitas vezes, meu
jovem, os sentimentos não estão somente nas palavras, mas podem estar também no
que se pode imaginar e sentir.-Terminou de dizer com o olhar distante por entre
a janela.
Ed calou-se e pôs a pensar. Pensou no grande sofrimento em
que Sr. Bernardo passou a ainda passara. Ele foi esquecido na sua profissão de
escritor, perdeu a sua família e ainda vivia de aluguel em sua casa. Porém
adorava dar aulas de piano e receber as visitas de Ed, já que o garoto era o
único que o respeitava no bairro, todos os outros não tinham paciência com o
Sr. Bernardo por conta de uma doença da idade que ele possuía.
Depois da longa reflexão, Ed corta o silêncio dizendo:
-O senhor é um ótimo escritor!Tem que ser lembrado
novamente.Prometo que tentarei fazer com que o grande Bernardo Nogueira , volte
ao seu tempo de glória!
Bernardo respondeu entre um sorriso de canto de boca:
-Gosto do seu otimismo , guri.-Voltou-se e sentou novamente na poltrona.-Pode
ser uma ideia boa, tens um grande coração.Mas já estou velho demais para isso.
-O senhor me disse que velhice está naquele que a teme, e o
senhor não a teme!Vou fazer esse sarau no fim de semana e o senhor estará
presente! Respondeu Ed entusiasmado e contando nos dedos o que ainda tinha que
fazer.
-Pois bem menino, eu irei participar.Mas já está na hora do
senhorzinho ir para a casa.Disse
Bernardo.
-Está bem.Vou organizar tudo.Respondeu Ed saindo porta a fora.
Passado a semana, o sarau promovido por Ed, estava pronto.
Incluía música e claro, as poesias de Sr. Bernardo.
Ed fez questão de apresentar a todos o seu amigo do
conservatório. Sr. Bernardo declamou suas poesias e voltou a ouvir os mesmos
aplausos de antes. Bernardo Nogueira
voltou a ser respeitado novamente.
Realizado, jovem e o senhor, prosseguiram contentes o sarau.
Após o término, Sr. Bernardo volta para a sua casa,
sentas-se na sua antiga poltrona, com folha e caneta em mãos, escreve:
‘’Me deram a melhor sensação do mundo novamente, a de ouvir
aplausos.
Me deram o mesmo sorriso de felicidade, de quando era
escritor.
Me deram o respeito novamente, superando todos os meus medos e preconceitos.
Mas o mais importante, ganhei uma família da qual Ed será
sempre um filho para mim.Agora eu posso dizer adeus a esse mundo.
Contente e realizado de novo.’’
Assim, foram as últimas palavras deixadas ao Ed. Sr. Bernardo se foi.Foi-se para uma viagem longa e sem
volta. Mas deixou a convicção ao Ed e para os outros de que não é a velhice que
impede alguém de fazer algo, mas sim o seu coração ‘’velho’’ , temeroso e
fechado. Todos somos iguais e adquirimos conhecimento e não velhice ao longo do
tempo.